sexta-feira, 20 de maio de 2016

Origem dos solos



A formação do solo é um processo lento, gradual e constante, onde as rochas e outros materiais expostos à superfície da Terra ou próximo dela ficam sujeitos à acção de processos naturais de aquecimento e resfriamento, decorrentes da alternância de dias e noites, da acção dos ventos, da actividade de organismos e principalmente da acção das águas, que se infiltram a partir das chuvas e percolam através dos materiais existentes. Esses processos naturais actuam no sentido de desagregar e decompor os materiais expostos à superfície. 
Quando actuam sobre as rochas esses processos são chamados de processos de intemperismo. Assim, intemperismo é o conjunto de processos que desintegram e/ou decompõem a rocha. Como o intemperismo acarreta a modificação das características originais da rocha, é também chamado de alteração intempérica. Assim, a alteração intempérica das rochas ou simplesmente, a alteração das rochas, ou ainda meteorização das rochas, significa a desintegração e a decomposição das rochas promovida pelo intemperismo que é responsável pela formação de solos. Esta alteração devém da exposição das rochas, formadas sob determinadas condições termodinâmicas no interior da crosta terrestre, às condições atmosféricas bem diferentes das quais elas foram formadas, o que provoca um reajuste termodinâmico na massa rochosa na procura por uma nova configuração de equilíbrio. (Ollier, 1984)


Tipos de alteração
Os processos de alteração ou meteorização podem ser agrupados de acordo com a sua natureza em três classes básicas ou tipos (Mitchell, 1976):
·  Alteração Física: quando promove a modificação das propriedades físicas das rochas pela acção de agentes naturais como a mudança do estado de agregação da água, variação de temperatura, acção dos ventos, cristalização de sais e a actividade das raízes e plantas. Acarretando a fragmentação dos seus componentes minerais da rocha, em fragmentos cada vez menores sem envolver a transformação química e mineralógica. Este tipo de alteração, tende a ocorrer mais junto a superfície. E muitas vezes é seguida pelo processo de alteração química;
·  Alteração química: ocorre quando as rochas expostas a água corrente com compostos que reagem com os componentes minerais das rochas e alteram significativamente a sua constituição nas superfícies expostas e no interior das fissuras existentes. Quando ocorre o acréscimo de hidrogénio resulta no processo de hidratação; quando é o de oxigénio resulta na oxidação; quando o acréscimo é uma combinação de carbono e oxigénio resulta em carbonatação; e ainda quando o acréscimo é de minerais solúveis promove a dissolução; e a hidrólise é resultado do acréscimo de iões solúveis. A hidrólise e a oxidação, alteram os minerais originais da rocha e formam minerais argilosos (argilo-minerais), mais estáveis ao ambiente superficial (Mictchell, 1976); a hidratação, dissolução e a carbonatação, assumem maior ou menor importância consoante o clima local, as condições de drenagem, o tipo de rocha, coberto vegetal, entre outros (Duarte, 2002). Comparados com os processos físicos, os processos de alteração química são capazes de um ataque muito mais potente que em casos extremos as mudanças resultantes na composição, propriedades e texturas podem ser tais que apagam quase completamente a natureza original do material primário. Por outro lado, enquanto os processos físicos ocorrem a superfície ou próximo dela, os processos químicos ocorrem geralmente em profundidade que podem atingir centenas de metros (Chorley, 1969). Mas qualquer processo é mais activo, em função das condições específicas do local e do clima dominante. Assim, enquanto os processos de alteração física ocorrem principalmente em climas áridos (quentes ou frios), os processos de alteração química ocorrem principalmente em climas tropicais;
·  Alteração bioquímica: se gera sob os efeitos de diferentes processos bioquímicos, entre quais destacam-se: a acidez gerada nas raízes das plantas, a catálise que provocam algumas bactérias sob a oxidação do ferro e o enxofre, e a acção dos ácidos orgânicos produzidos durante a decomposição da matéria orgânica nos horizontes superficiais do solo. Os processos bioquímicos não só constituem um factor genético na formação do solo mas também joga um papel significativo na decomposição e meteorização da rocha.


Por causa desses processos de alteração e de formação de novos minerais, um conhecimento aprofundado da génese e composição de solo residual se faz necessário para uma cabal compreensão do seu comportamento mecânico. 

Referências 
ALAN A. LUCIER, SHARON G. HAINES (1990). Mechanisms of Forest Response to Acidic .Deposition.Springer-Verlag New York, Inc., 175 Fifth Aveneu. New York, NY 10010, USA.
MITCHELL. J. KENNETH (1976). Fundamentals of soil behavior. University of Michigan.
RICHARD J. CHORLEY (1969). Water, Earth and Man: A Synthesis of Hidrology, Geomorfology and Socio-economic Geography. Mathuen.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

AS RAVINAS EM ANGOLA_ Causas e medida de contenção *(Resumo)


Ravina no Uige

A Terra que conhecemos hoje nem sempre foi assim. Ao longo de milhões de anos têm sofrido significativas mudanças provocadas por numerosos fenómenos geológicos que visam o seu equilíbrio, alguns de ordem interna, criando novas formações geológicas e, outros de ordem externa suavizando as formações anteriormente criadas. Do ponto de vista tectónico Angola localiza-se numa zona relativamente estável o que lhe confere um certo privilégio quando comparada com certos países asiáticos ou mesmo americanos onde com alguma frequência ocorrem os sismos e as erupções vulcânicas.
Contudo, o mesmo não se pode dizer em relação à ocorrência de fenómenos geológicos de âmbito externo, como é o caso das ravinas, que em anos mais recentes tem tomado corpo em muitas províncias, especialmente devido a actividade antrópica, colocando em risco infra-estruturas, campos agrícolas, rios e a vida da população. Entendemos que a redução desses riscos começa sobretudo pela identificação dos mesmos, e a posterior tomar as respectivas medidas preventivas.

O presente trabalho surge como resultado de alguns trabalhos de pesquisa desenvolvidos pelo autor em decorrência dos cursos de Erosão dos solos e Estabilização de solos sujeitos a fenómenos de erosão ministrados pelo Laboratório de Engenharia de Angola (LEA) e pelo insuficiente conhecimento que se tem sobre este fenómeno num país que se pressupõem que tenha as condições necessárias para a formação do mesmo.
Para a efectivação desse trabalho recorreu-se a consulta de dados cartográficos, pesquisa bibliográfica, auscultação de alguns representas provinciais e moradores locais, bem como a constatação in loco de algumas áreas afectadas.

Os resultados obtidos permitem-nos aferir que as principais províncias afectadas pelo fenómeno de ravinamento localizam-se nos planaltos Central e Norte, assim como na região leste, nomeadamente: Zaire, Uíge, Huambo, Bié, e com maior incidência nas províncias da Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico e mais recentemente na província Cuando-Cubango. Não descartando, porém, a existência das mesmas noutras regiões, como por exemplo em Luanda e em Cabinda [1].

Relativamente as causa, podemos aferir que as ravinas em Angola são primeiramente decorrentes de fenómeno naturais, resultantes da conjugação de três factores naturais: clima, relevo e tipos de solo [2]. Ao adicionarmos a esses factores a actividade antrópica, nomeadamente a execução de obras de construção, obstrução do sistema de drenagem, exploração de inertes, actividade agrícola e queimadas torna o fenómeno mais activo requerendo muitas das vezes acções imediatas.

Estas podem ser mediante a intervenção de medidas estruturais ou de engenharia e mediante as medidas de estabilização através da cobertura do solo degradado [2]. Neste trabalho apresentamos um exemplo de medidas de estabilização através da implantação de uma vegetação local denominada Pennisetum purpureum ou vulgarmente chamada capim de elefante. É uma gramínea perene, típica de ambientes tropicais que devido às suas características morfológicas, físicas e de propagação, julgamos que pode ser uma alternativa para recuperação de ravinas, especialmente em zonas rurais dado que é uma técnica simples, de baixo custo e eficiente.


Espera-se que os resultados obtidos possam contribuir para uma melhor compreensão das causas do fenómeno de ravinamento em Angola e que o método de estabilização adoptado possa ser adaptado noutras províncias afectadas a fim de prevenir e conter as ravinas. 


Referências:
[1] Governo de Angola. (2011) In: Plano Estratégico de Gestão de risco de desastres. Diário da República. I Serie Nº95, 2962-2963

[2] Chinguar L (2011) Erosão, um fenômeno natural e previsível, mas que surpreende sempre

[3] Laboratório de Engenharia de Angola & Laboratório Nacional de Engenharia de Civil (2014) Curso de Erosão dos solos.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

SOLOS RESIDUAIS DE ANGOLA_ESTUDOS PRELIMINARES



Durante muitos anos o estudo sobre os solos residuais tem tomado cada vez mais relevância nas lides das mais diversas academias de geociências mundiais com maior realce para o Brasil, regiões Centro e Sul de África, e algumas outras regiões de clima tropical húmido onde esses solos têm maior representação.
Os solos residuais estão distribuídos por muitas regiões do mundo, tais como: África, o Sul da Ásia, Austrália, parte Sudeste da América do Norte, América Central e respectivas ilhas, América do Sul e regiões consideráveis da Europa. As maiores áreas e espessuras destes solos ocorrem normalmente em regiões tropicais húmidas, tais como: Brasil, Ghana, Malásia, Nígeria, Sul da Índia, Srilanka, Singapura e Filipinas (Brand e Phillipson,1985. Citado em Duarte, 2002 e USDA Natural Resources conservation, 2004).


Figura 1 – Mapa dos solos (USDA Natural Resources Conservation, 2002.

Em Angola, a primeira informação conhecida sobre os solos data de 1878, mas o estudo sistemático dos mesmos, segundo uma perspectiva pedológica iniciou-se em 1946, devido à iniciativa da Secção de Física Agrícola do Instituto Superior de Agronomia, procedeu nesse ano ao reconhecimento preliminar dos solos da região planáltica (Botelho da Costa & Azevedo,1947; citado por Sertoli, 2009).
A partir de 1951, com a colaboração da Junta de Investigações do Ultramar, hoje Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), onde se constituíram a Missão de Pedologia de Angola - MPA (1953-1973) e o Centro de Estudos de Pedologia Tropical - CEPT (1960-2004), o estudo dos solos de Angola intensificou-se de forma notável, continuando a fazer-se em íntima ligação com o Instituto Superior de Agronomia. (Ricardo,1961)
Com o trabalho de outras entidades, quer grupos privados actuando no domínio da caracterização e cartografia de solos, quer núcleos de investigação dos serviços oficiais de Angola, a actividade em Angola decorreu principalmente nas seguintes áreas: caracterização, classificação e cartografia dos solos; física, química e mineralogia do solo; pedogénese; micromorfologia do solo; degradação, conservação e recuperação dos solos; fertilidade do solo e nutrição mineral das culturas; tecnologia geral do solo, com relevo para a tecnologia da fertilização; pedoclima (Sertoli, 2009).
Muitos dos estudos realizados em Angola revestiram-se de um carácter pioneiro e tiveram marcada projecção no estrangeiro, de tal modo que foi mesmo reconhecida internacionalmente a existência de uma “Escola Portuguesa de Pedologia Tropical”.
Por exemplo, quando a Carta dos Solos da Huila veio a lume, realizaram-se em Africa duas reuniões internacionais de grande importância em relação a classificação dos solos africanos: a chamada “Conferência Regional de Pedologistas” e a “3ª Conferência Interafricana dos Solos”. Onde, dentre outros assuntos, apresentou-se para a discussão a 1ª aproximação da Carta dos Solos da Africa ao Sul do Sara, houve progresso na definição dos solos e na sua nomenclatura e abriu oportunidade para a discutir a 2ª aproximação e a preparação para a apresentação da 3ª aproximação da Carta dos Solos da África ao Sul do Sara que teve uma ligação com a classificação Francesa, enriquecendo o conjunto com contribuição de certos conceitos desenvolvidos para solos do Congo por pedologistas Belgas (MPA, 1961).
Do ponto de vista científico, investigaram-se os principais tipos de solos de Angola numa perspectiva global e tipicamente naturalista, caracterizaram-se quanto à morfologia e a aspectos físicos, químicos e mineralógicos, definiu-se a sua taxonomia pedológica e estudou-se a sua distribuição geográfica.
Dessa actividade de caracterização, classificação e cartografia de solos, resultou a publicação de um vasto conjunto de Cartas de Solos: Ex-distritos da Huíla e Cunene (1959); Ex-distrito do Huambo (1961); Ex-distrito de Moçâmedes (1962); Ex-distrito Cabinda (1965); Ex-distritos Uíge e Zaire (1972); Ex-distrito Benguela (1981); Província de Cuanza Sul (1985); Província de Malanje (1995); Província de Bié (2002). Em vias de publicação: Províncias de Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico, e Província de Cuando-Cubango. Em elaboração: as Cartas das Províncias de Luanda, Bengo e Cuanza Norte.



Figura 2 – Carta geral dos solos de Angola (etapas de evolução dos estudos)


Além disso tornou-se possível cobrir todo o território angolano com uma carta de solos, tendo-se publicado nesse sentido a Carta Generalizada dos Solos de Angola (3ª aproximação) em 1965.
No que respeita à Taxonomia Pedológica, os estudos desenvolvidos que conduziram à construção de um Sistema de Classificação dos Solos de Angola contribuíram de forma marcada para o progresso da taxonomia dos solos tropicais (IICT, sem referência).
Embora já se obteve essa 3ª aproximação (1965), o conhecimento obtido quanto às características, tipologia, classificação e distribuição geográfica dos solos de Angola – conhecimento esse que era directo em relação às áreas estudadas e que correspondia a uma previsão no respeitante às áreas ainda não estudadas, fazendo-se tal previsão por extrapolação para estas últimas áreas dos conhecimentos que se haviam obtido directamente nas primeiras, atendendo à correlação verificada entre os respectivos factores pedogenéticos. Houve a necessidade de se fazer novos estudos; foi assim que surgiu a 4ª Aproximação concluída em 1997 (numa versão digital, formato vectorial) e foi elaborada utilizando a Classificação de WRB (World Reference Base for Soil Resources).
A primeira versão da WRB foi lançada durante o 16° “World Congress of Soil Science” em Montpellier em 1998 e, desde então, tornou-se a referência oficial para a nomenclatura dos solos e para a classificação dos mesmos na Comissão Europeia e foi adoptada como ferramenta preferida pela “West and Central African Soil Science Association” para harmonizar e trocar informações na região (WRB, 2006).


Figura 3 – Carta Generalizada dos Solos Angola (WRB, 2006)

Tais tipos de solos em Angola se verificam em grande parte dos planaltos do centro e sub planaltos centro-norte: Huambo, Huila, Zaire, Uige, Malange, Ndalatando, Kwanza – Sul e Bié (Sertoli, 2006).



Referências
MISSÃO DE PEDOLOGIA DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE E CENTRO DE ESTUDO DE PEDOLOGIA TROPICAL (1965).“3ª Aproximação da Carta Generalizada dos Solos de Angola”. Junta das Missões e de Investigações do Ultramar. Ministério do Ultramar.
MISSÃO DE PEDOLOGIA DE ANGOLA (1961). “Carta Geral dos Solos de Angola – II-Distrito de Huambo”. Junta de Investigação Ultramar. Ministério do Ultramar.

PEEL, M. C. AND FINLAYSON, B. L. AND MCMAHON, T. A. (2007). "Updated world map of the Köppen-Geiger climate classification". Hydrol. Earth Syst. Sci. 11: 1633-1644. ISSN 1027-5606.
RICARDO, R. P. (1961). “Características dos ácidos húmicos de alguns solos de Angola”. Estudos, ensaios e documentos nº87. Junta de investigação do ultramar, Lisboa.
SERTOLI, PAOLO ENRICO (2009). As características do complexo de troca e a classificação dos solos da República de Angola. Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Agronómica. Instituto Superior de Agronomia. Universidade Técnica de Lisboa.

Felisberto Monteiro Queta